11 mil casos em MT: por que o coronavírus preocupa tanto e a dengue não?

Mais de 1,7 mil casos de dengue foram registrados só em Sinop. É quase o total de suspeitas de coronavírus no país inteiro

Por O livre 18/03/2020 - 11:57 hs

Nesta segunda-feira (16), a segunda atualização do boletim diário sobre a proliferação do coronavírus pelo Brasil, divulgado pelo Ministério da Saúde, apontava que 200 pessoas estavam infectadas no país e outras 1.917 tinham casos sob suspeita.

Ao mesmo tempo, a Secretaria de Saúde de Mato Grosso (SES) informava à reportagem do LIVRE que 11.127 casos de dengue já haviam sido notificados no Estado só nos primeiros dois meses do ano.

Neste mesmo período, apenas em Sinop a dengue já havia vitimado quase a mesma quantidade de pessoas que têm suspeita de terem contraído o coronavírus no país inteiro.

O município notificou 1.744 casos da doença transmitida pelo mosquito aedes aegypti e quatro pessoas já haviam morrido: duas mortes por dengue hemorrágica foram confirmadas, outras duas estavam sob investigação.

Mas se os números são tão superiores, por que o coronavírus preocupa mais?

Para o secretário de Saúde de Sinop, o médico Kristian Barros, é algo que não faz sentido.

“Nós temos que tomar muito cuidado, sim, com o coronavírus, mas o que nós temos aqui no Estado e no município é dengue. E a dengue mata muito mais que o coronavírus”.

Taxa de mortalidade

Desde o surgimento da nova doença, na China, a taxa de mortalidade das pessoas que contraem o coronavírus é de aproximadamente 3%. E a baixa letalidade da doença seria o problema para especialistas.

É que, como o paciente não fica debilitado rapidamente, a chance de ele continuar trabalhando e frequentando locais públicos – e, consequentemente, disseminando o coronavírus – seria maior.

Para o secretário de Sinop, essa forma de transmissão, de pessoa para pessoa, é o que tem deixado a população em estado de alerta. Ele destaca, entretanto, que – embora seja necessária a picada de um mosquito – a dengue também pode ser transmitida de maneira semelhante.

“Se você tem uma fêmea de mosquito que não está infectada, mas pica uma pessoa que tem dengue, ela se infecta. E quando ela picar outra pessoa, saudável, vai passar a doença”, ele explica.

O colapso da saúde pública?

Do ponto de vista das políticas de saúde pública, Kristian Barros afirma que um surto de dengue tem tanto potencial quanto o de coronavírus de colapsar o setor.

Os sintomas das duas doenças são semelhantes: febre e problemas respiratórios parecidos com os causados por uma gripe comum.

No caso do coronavírus, pacientes idosos ou que já têm outras doenças, como a diabetes – e que compõem o grupo de risco – podem ver a doença evoluir para um quadro mais grave, que demanda internação e, em algumas situações, até um leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

E a falta desses leitos é que tornariam a situação crítica, já que afetaria também pessoas que não estão infectadas, mas precisam do tratamento intensivo por outras enfermidades.

O secretário de Saúde Sinop lembra, entretanto, que a dengue também pode evoluir para casos gravíssimos. Uma das principais complicações da doença – e que pode causar a morte – é a queda na quantidade de plaquetas no sangue.

“As plaquetas são o elemento que fazem o sangue coagular. Quando há um número muito baixo delas, a pessoa sangra. Sangra sem ter cortes. É a dengue hemorrágica, que leva a morte”.

Para ter dengue hemorrágica basta ser picado pelo mosquito. Kristian Barros lembra que não existem grupos de risco e pacientes nesse estágio também precisam de UTI.

Prevenir evita as duas doenças

Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) apontam que Mato Grosso registrou cerca de 17 mil casos de dengue no ano passado. Em 2020, só nos dois primeiros meses do ano o Estado já recebeu a notificação de mais de 11 mil pacientes.

Entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, Sinop é a campeã disparada. E o secretário de Saúde, Kristian Barros, aponta ao menos três motivos.

Segundo ele, a política do município é que todos os casos suspeitos de dengue devem ser notificados. “E nós sabemos de alguns municípios que não fazem tanta questão disso por questões políticas”, ele diz.

Mas também faz “mea-culpa” reconhecendo que, no ano passado – quando Secretaria Municipal de Saúde estava sob comando de Gerson Danzer – medidas necessárias não teriam sido  adotadas.

Por fim, lembra do papel da população: manter quintais limpos, sem recipientes que possam acumular água e se tornar um foco de proliferação do mosquito.

“E isso não só nas casas, mas nas empresas. Nós tivemos muitos casos de empresas que foram multadas, pagavam a multa e não resolviam o problema. Hoje estamos trabalhando com a possibilidade de embargar esses locais”, ele explica.